Algumas vezes, desde que sou jornalista, tive a infeliz oportunidade de "pertencer" ao fato. Eu estava lá, eu conhecia a história, participei dela. A mais terrível foi a morte de meu irmão, o Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, atropelado por um motoboy. Quem sabe a história, dê um Google. Terão uma vaga ideia. Reuni-se sob seu nome uma colcha de retalhos, desconexa, com informações contraditórias, erros. inverdades, besteiras. Agora vejam: sou jornalista. conheço o desagradável trabalho que é ter de ficar fuçando por informações numa situação com essa. Meu irmão passou dois dias em coma antes de morrer.
Falei com minha família no primeiro momento sobre esse infame trabalho de "urubu", voando sobre a carniça, que não era escolha mas obrigação da mídia, de meus "colegas". Chamei a todos e me comprometi pessoalmente a informá-los, com total transparência, cada novo "fato". A condição era que não incomodassem minha mãe. os filhos dele, os filhos de minha irmã e o meu. Nada muito complexo; nada que impedisse o bom exercício do jornalismo. Dei-lhes meu celular para em caso de dúvida, me consultassem. Eles ficariam do lado de fora do hospital. Meu irmão, minha irmã, eu, os Titãs, os médicos, a assessoria do hospital falaríamos, como de fato fizemos, a qualquer momento que houvesse a menor novidade.
Até hoje não consigo entender como que nenhuma mídia, nem jornais, revistas, internet, rádios, tvs cometeram, no mínimo, deslizes. Não há um único texto que não tenha pelo menos um erro. O nome dos filhos, o estado de saúde, o que houve no acidente, enfim.
Sempre achei e sei que jornalismo é uma máquina de produzir erros. Desconfio de qualquer informação que chega. Os "jovens" repórteres me detestam. Ficam irritadíssimos com meu questionamento a suas informações. Dezenas de vezes discuti com editores, redatores, repórteres que estamos falando da vida de pessoas, que poderiam ser nossos irmãos, pais, amigos, que devemos a verdade ao leitor, que é esse o nosso papel e a nossa missão. É o nosso trabalho: ganhamos para informar corretamente.
Aproveitando que resolvi falar do tema, que evitei nesses 8 anos desde a morte do Marcelo, vamos a outro ponto que, esse sim, me chocou.
Estávamos em choque. Perder um irmão, pai, filho aos 39 anos, é mais do que chocante, é arrasador. Mesmo assim, resolvemos doar os órgãos. Era o nosso jeito de mostrar que esse é um ato importante.
Acompanhei pessoalmente toda a terrível tramitação que isso representa para a família e qual não foi meu horror, ao assistir o Fantástico, no domingo, com a cena do transplante do coração de meu irmão. Fomos submetidos a tudo, que só a total insensibilidade jornalística da Globo seria capaz de "promover". Desde o coração sendo transportado até ele batendo no peito do receptor. Era o show da vida para a a tv e o show da morte para nós. Não nos consultaram, não pensaram o que isso podia representar para minha mãe e para seus filhos. Não respeitaram o fato de termos sido honesto e abertos às necessidades de informação. Médicos, jornalistas, hospitais queriam se promover. Não havia necessidade daquilo. Informação completamente dispensável. Brutalidade pura, insensibilidade desumana. Mentiras e mais mentiras a cada frase.
Fazemos um jornalismo que não considera os sentimentos humanos. Fazemos um jornalismo que não se preocupa com a verdade. Não fazemos jornalismo então.
Hoje leio sobre a morte do Boal, que também conhecia bem, em todos os portais a reprodução dos mesmos erros. A informação superficial. Era, sem dúvida, não por escolha minha, mas da Unesco, o maior dramaturgo que o Brasil teve. Fez pelo teatro e pelo país o que poucos tiveram a oportunidade de fazer. Nada, nem uma bibliografia, nem uma lista básica dos livros que escreveu, das peças que dirigiu, do trabalho que mudou o "como" fazer teatro.
No caso, imagino que a "juventude" das redações não souberam avaliar a importância dele.
Nós, jornalistas, devemos muito aos leitores - somos ignorantes e não nos envergonhamos disso. Repassamos os erros para a história. Estamos cada vez mais longe da nossa função: informar a verdade.
Triste pertencer a isso. Mais valia vender cachorro-quente numa van, pelo menos não contribuiríamos para a mediocridade.