Trabalhei em algumas redações, como, em geral, todos os jornalistas. Acho isso saudável -- diminui os riscos que os "vícios" representam para o fazer jornalístico. Redações são neuróticas, cheias de manias, de pode-e-não-pode. Muitos egos gigantes reunidos num mesmo ambiente boa coisa é que não podia dar. Jornalistas se acham. Assim, essa mudança de "cadeiras" tem duas funções importantes:
1. Faz com que chefes virem subalternos e vice-versa, de tempos em tempos, às vezes para o bem e outras tantas para o mal. Vai depender muito do que juntar - quem com quem. De qualquer forma, amansa os egos. Recoloca ou desloca cada um de seu reinado. Só por isso já valeria.
2. Mostra que há culturas diferentes, que nem tudo estava "certo" e nem tudo estava "errado" na "outra" redação, e que precisamos sempre pensar sobre o que estamos fazendo. Há várias formas, não há isenção e nem certo e/ou errado. Decidir por qual forma, qual o "certo" e o "errado" é tarefa cotidiana, exige atenção, reflexão, informação e conhecimento, pelo menos. Ou seja, ver que se faz jornalismo de formas diferentes em lugares diferentes nos torna mais atentos e questionadores, o que é fundamental para o bom jornalismo.
Mas, tirando essa parte teórica da dança de cadeiras, há a parte "prática" - a vida "humana" nas redações. Não há série ou filme capaz de descrever. Imitam, mas não chegam nem aos pés. De fato, seria muito patético unir a pretensão com a mediocridade e fazer disso algo minimamente interessante. Mas, concordo que estamos muito mais para essas comédias de exageros do que para uma boa história humana. Muitas vezes desconfio da "humanidade" dos jornalistas, tendemos a nos desumanizar.
Então, como eu ia dizendo, há a vida humana das redações que, nas voltas que a vida dá, faz aliados virarem inimigos e inimigos, aliados num piscar de olhos. Nunca conheci pessoas tão rígidas no julgamento alheio e tão frouxas em seu próprio como jornalistas. Sempre briguei por isso nas redações que trabalhei. Sempre alertava as equipes sobre "nossos vícios e mazelas". Mas é pregar no deserto, bem sei. Mal temos tempo para ser, que dirá para pensar, refletir.
Enfim, o fato é que estou relendo textos sobre a Segunda Guerra por causa de um trabalho que estou fazendo. É incrível como a escolaridade é inútil - não me lembrava de quase nada. Lógico que não sou debilóide e, portanto, sei datas, fatos importantes, o básico para não fazer feio. Relendo me pasmo mais uma vez de como os aliados de ontem se tornam os inimigos de hoje. Se é fácil assim fazer isso entre países, potências, milhões de pessoas, que dirá numa redação!!!
Tenho poucos inimigos meus, de minha escolha e arbítrio. Sei que tenho vários que se consideram meus inimigos. Contava com isso desde o início, da primeira vez que me tornei chefe, fui bem "escolarizada" pelo Otavio e pelo André, e portanto, não chego a me chatear. Na maioria dos casos que tenho informação, acho besteira fazer de mim uma inimiga, não me considero merecedora desse "cargo", mas... como também eu tenho os meus, então não serei o juiz.
Trabalho bem a troca de cadeiras. Em geral, tive sorte. Quando subordinados viraram chefes já tinham muito para me ensinar e podíamos compartilhar do pensar jornalismo (coisa rara nas redações, por incrível que pareça). Do meu ponto de vista, foram boas parcerias.
Mas, vi coisas de não se acreditar. Comportamentos de invertebrados. O coleguismo reina nas redações. Trabalhei em redações nas quais o companheirismo (que em nada se assemelha a coleguismo) reinava, e foi realmente muito bom. Fizemos acontecer. Nunca me esquecerei os fechamentos escalonados e todos os editores ajudando a fechar política e primeira página, mesmo depois de já haverem fechado suas editorias. De pedirem para suas equipes ajudarem e depois nem precisarem mais pedir porque também elas já faziam, por gosto, acreditem, por gosto mesmo. Também não vou esquecer, editores se pegando no tapa (literalmente) por um terminal de computador de "1º nível", que descia as matérias para o past-up. Tempos de past-up... Cultura de redações, como eu dizia.
Sou rígida, mas muito rígida mesmo, nos critérios de pessoas com quem trabalho e pessoas com quem não trabalho. Uso um único critério: caráter, aquilo que se forma ao longo da vida baseado em valores éticos. Pouco me importa se simpatizo, se acho divertido, se simpatiza comigo e todas essas baboseiras correlatas, mas, não topo mau-caráter. Não sei lidar com eles. Sempre aparece aquele luminosos "trouuuxa" na minha testa. Eles me passam a perna. Não confio na informação que eles trazem -- que garantia eu tenho de que ele, pelo menos, tentará contar a verdade para o leitor? Acho eles um perigo numa redação - típico caso de "uma laranja podre apodrece o cesto inteiro". Não aceito comandar mau-caráter. Mas ser comandada por um deles... sobre isso não há escolha, muitas vezes. Você está lá, fazendo seu trabalho, fazem uma reviravolta de poderes (muito comum no mundo corporativo para acomodar os "aliados da hora") e manézinho(a) vira seu chefe. Uauauauauau... você respira fundo, seu trabalho, o mercado, o salário, a terapia, o... e, toca em frente. Com sorte, a coisa se "desfaz" rapidamente. Não só eu fui esperta e percebi que se tratava da pessoa errada no lugar errado na hora errada, ou seja, tudo errado. E os outros que perceberam , e que podiam, também percebem que o "aliado da hora" pode virar a pedra para o inimigo atirar em seu telhadinho de vidro e, então, espertamente, se "desfazem" dela(a) e você se livra, por consequência, é verdade, mas enfim, se livra.
Não há nada pior do que trabalhar com mau-caráter como chefe(s). Eles aceitam, com prazer, outros da sua "espécie". Fomentam os piores valores como a hipocrisia, a bajulação, os "protegidos", os "inimigos de ocasião", o individualismo e o consequente personalismo, o autoritarismo no lugar da razão, o que se diz no lugar da justiça. Fazem, com a maior facilidade, dos aliados inimigos (o que é bem pior do que fazer dos inimigos aliados). Sem escrúpulos, sem coração.
E, em tempos de "Che", aproveito... "hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".
P.S. Uso redação e redações em caixa-baixa para não esquecer a condição de sermos (e devemos ser) caixa-baixa, se é que me entendem).