domingo, 29 de novembro de 2009

Dos acasos

Jamais pensei em ser jornalista. Pensei em ser médica, veterinária, psicóloga, escritora, atriz, bailarina. Estudei Educação na USP - Pedagogia - Orientação Educacional. Dava aulas desde os 17 anos. Aos 18 já trabalhava com crianças com grandes dificuldades de aprendizagem: lesão cerebral, dislexias fortíssimas. Também, com uma grande amiga, a Luiza, fizemos um programa de alfabetização de adultos para os funcionários da USP - quase 30% dos funcionários da Universidade de São Paulo eram analfabetos. Isso foi por volta dos anos 80. Trabalhamos com os jardineiros. Brigamos um monte para conseguir. Encontramos todo tipo de resistência da universidade; nossos professores não aceitavam como horas de estágio. Patética, como tendia a ser a administração da USP na época. Fizemos um trabalha bem bacana e sério para duas garotas com cerca de 24 anos, sem nenhum respaldo técnico e pedagógico. O programa existe até hoje, que eu saiba. Agora, é "chic", já tem um monte de donos da ideia, mas, fomos nós duas.
Um dia, depois de ter casado, tido meu filho e me separado. Pouco mais de 3 anos dessa história, seguia dando aulas, e ganhando muuuito mal.
A decisão da separação me colocou num novo problema: agora era comigo mesma. Precisava ganhar mais. Meu querido amigo André trabalhava na FSP então. Era época de Diretas. Meu amigo Otavio ousava com o Projeto Folha e eu sempre escrevera - não tão bem quanto qualquer um dos dois, mas não era completamente analfabeta. O Otavio queria gente nova, que estivesse com ele, que amadde ousar com ele então amava. Chamaram-me para coordenar os artigos (uma seção que existia) para a Constituinte. Em uma semana era também redatora, em três meses, redatora das páginas 2 e 3, em mais uns meses editora-assistente de política e mais uns outros tantos editora de educação. Nem imaginava que me sentiria tão bem, tão afinada comigo mesma sendo jornalista. Devo muito a muita gente que me ajudou muito nesses primeiros anos, quando era uma foca, uma menina que estudou pedagogia (argh) e que lá estava porque era amiga dos chefes. Tudo verdade. Nada realidade. Nunca nossa amizade me favoreceu. Nunca pedi, nunca quis e nem eles também. Sempre foi super tranquilo isso. Somos amigos até hoje.
Adoro jornalismo. Faz parte de mim, flui com sintonia e segurança, diverte-me, instiga-me, excita-me. Penso o mundo em pautas, monto as pautas já com o texto imaginário da matéria, diagramo a página na sintonia do tema, e posso criar.
Não acho que haja nenhuma glória nisso. Fora os privilegiados que têm dons, nós, humanos mortais, podemos, com muita sorte, encontrar no trabalho, na profissão o melhor lugar para que suas qualidades possam acontecer - os defeitos, os rancores, a sensação de emprego são ínfimas, quase nem se fazem sentir. Lógico que há enormes insatisfações, dificuldades, resultados infelizes, mas isso é da vida. Já poder viver de suas habilidades naturais e suas qualidades é ter sorte na vida.
"aquele que não acredita no inesperado é que não o encontra" (já não me lembro de quem é a frase)

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